Books / Livros

Chicago Tribune Books Section
August 16, 2008
With a keen sense of narrative, author transports readers to 1930s Brazil and the story of two sisters

By Alan Cheuse

It’s rare to find a first novel by a writer barely out of a workshop who isn’t looking inward. But “The Seamstress,” a glorious narrative production by recent University of Iowa Writers’ Workshop graduate and Chicago resident Frances de Pontes Peebles, turns our eyes toward the country of the writer’s birth—Brazil—and its barren northeast states and carries us back in time to the early 1930s. The story we fall into, as in John Gardner’s notion that reading a good novel is like falling in a continuous waking dream, gives us as good as we can get.

Two sisters, Emilia and Luzia, country girls and gifted seamstresses both, raised by their widowed aunt, find that their destinies initially diverge—and eventually converge—when their hilly hamlet of Taquaritinga do Norte, in the desolate state of Pernambuco, in the drought-ridden region of the backlands, is raided by a band of cangaceiros. (The cangaceiro was a cross between an anti-government rebel and a cowboy warrior. They traveled in packs, living off the impoverished but beautiful backlands when Brazil was becoming increasingly centralized and federalized.)

When the leader of the cangaceiros, the scar-faced peasant rebel known as the Hawk, abducts the more-than-willing Luzia, the plot rolls into action. She becomes seamstress to the rebels, and the Hawk later elevates her to the roles of mistress, wife and mother of his child. Emilia, meanwhile, enters into a marriage of convenience with a visiting city boy, a greatly troubled rich boy as it turns out, and moves to the port city of Recife.

As romantic as the story sounds—and Peebles has made an agonizingly romantic story in the best sense of the word—it all takes place against the nicely realized political turmoil of modernizing Brazil and the growing threat of Nazism in Europe.

But good stories don’t grow out of thin air. They begin with the writer’s keen sense of narrative—Peebles certainly has it—and sharp sense of observation. You can go to any page of the book and see that Peebles has that power in spades. Here, for example, is her initial description of the Hawk:

“On his right cheek was a scar, two fingers thick, which roped from the corner of his thick lips and disappeared beneath his ear. The scar’s flesh was lighter than his skin, like a crack on the top of a cake when the batter rises and splits the browned crust. The left side of his mouth opened in a smile, but the scarred side remained serious, paralyzed. . . . His fingers were short and thick, like a cluster of bananas.”

The baking metaphor seems appropriately female, and radically apt, as is the metaphor of the fingers like a cluster of bananas. Why? I ate this book up.

Entre dois amores
Por Olga de Mello, Valor Econômico
Literatura: Escritora brasileiro-americana que cresceu nos EUA volta para o Brasil e lança a tradução, para o português, de seu primeiro romance.

A descrição da celebrada escritora dinamarquesa Isak Dinesen bem poderia ser assinada por Frances de Pontes Peebles. Há cinco meses administrando a fazenda de café de sua família, em Taquaritinga do Norte, no Planalto da Borborema, em Pernambuco, Frances não tem nenhuma pretensão de tornar-se uma Dinesen dos trópicos. “Espero que minha fazenda seja mais bem-sucedida do que a dela. Na literatura, minha ousadia não chega a tanto”, disse em entrevista por telefone ao Valor, na semana em que chegou às livrarias brasileiras a tradução de seu romance de estreia, “A Costureira e o Cangaceiro” (Nova Fronteira, 624 págs., R$ 69,90).

Isak Dinesen era o pseudônimo de Karen Blixen (1845-1992), que morou por 16 anos no Quênia, onde teve uma fazenda de café. Desistiu da empreitada em 1931 e voltou para a Dinamarca para dedicar-se à literatura. O autobiográfico “A Fazenda Africana” tornou-se seu livro mais conhecido, principalmente depois da versão cinematográfica de Sidney Pollack, com Meryl Streep no papel da escritora. Gostava de escrever em inglês e depois os textos eram vertidos para seu idioma nativo. Outro de seus contos a lhe render popularidade por adaptação para o cinema foi “A Festa de Babette”, de Gabriel Axel.

Além da dedicação ao café e à literatura, Frances, como a dinamarquesa, também escreve em inglês. Nascida no Recife há 30 anos e definindo-se como alguém com “um pé no Brasil e outro nos Estados Unidos”, a brasileira sente que sua fluência em português está restrita à fala – com um forte sotaque pernambucano. “Não tenho segurança para me aventurar em textos maiores que os de cartas ou e-mails”, explica Frances, que não interferiu na tradução de Maria Helena Rouanet para o romance. Na versão original fez questão de inserir termos em português.

“Não existe tradução para alpercatas, cangaço ou jagunço. Não são sandálias de couro, bandidos nem vaqueiros, têm outro significado. Então, pus notas explicativas e deixei tudo como se fala aqui, até porque pretendia reproduzir um pouco da musicalidade do palavreado polissilábico português”, conta Frances, que viveu no Brasil até os 5 anos, quando a família se mudou para os Estados Unidos para acompanhar o pai, David Peebles, engenheiro americano.

O contato estreito com a família materna, em Pernambuco, foi sua base para criar uma história genuinamente brasileira. Seguindo a saga de duas irmãs órfãs e costureiras, Frances mostra tanto o Brasil urbano, por meio da sociedade do Recife da época, que buscava acompanhar a modernidade europeia no período anterior à Segunda Guerra Mundial, e o agreste nordestino, onde o tempo resistia às novidades. Depois de formar-se em Letras pela Universidade do Texas, recebeu uma bolsa da Fundação Fulbright para pesquisar o cangaço e escrever um romance histórico totalmente fictício, em que o único personagem real é Getúlio Vargas. “Até os sobrenomes são inventados, pois não queria nenhuma associação com gente que viveu na região.”

O fascínio pelo universo do cangaço vem da infância. Em Taquaritinga ouvia boatos sobre vizinhos que teriam sido cangaceiros. “Eu tinha um medo danado de um tal de seu Vitorino, que teria sido do bando do temível Antonio Silvino. Hoje o cangaço é folclore e os cangaceiros têm aura de heróis, mas quem viveu aqueles tempos sentia pavor deles. Por mais que os cangaceiros fizessem frente ao poder dos coronéis, eles eram perigosos. As famílias escondiam as filhas, já que muitas meninas de 14 anos eram sequestradas pelos cangaceiros. E, mesmo que não sofressem violência alguma, eles ainda tinham que hospedar ou ceder as casas para os bandos”, contou Frances.

A pesquisa histórica à qual se dedicou durante quatro anos e meio incluiu entrevistas com moradores de Taquaritinga, que eram jovens na época do fim do cangaço: “Os relatos deles forneceram o tom de veracidade necessário ao romance. Eu queria criar os meus cangaceiros, que têm características de gente que existiu realmente, só que tudo bem misturado, de forma a ninguém ser reconhecido. As lembranças dessas pessoas me ajudaram a fazer a transposição para aquele mundo que acabou”.

Traçando um paralelo entre a trajetória das irmãs – uma que vive um casamento de conveniência no Recife, a outra, levada por cangaceiros, ganhando notoriedade por sua força dentro do bando -, Frances quis mostrar que as normas rígidas pautavam o comportamento de todos os grupos sociais. “Qualquer traição era punida com a morte. O adultério era proibido. Pouco se sabe do cotidiano das mulheres do cangaço, que entregavam os filhos recém-nascidos aos padres no sertão para que fossem criados por outras famílias. Era uma vida muito perigosa, arriscada, porém a angústia também existia para quem sofria o preconceito da sociedade rica no meio urbano, obrigada a cumprir rituais de luto, mesmo que não sentisse a dor da perda pela morte”, relatou.

A versão brasileira de “A Costureira e o Cangaceiro” exigiu um corte de quase cem páginas. Frances Peebles reconhece que o romance, atualmente com 600 páginas, ainda é bastante extenso. Mesmo assim, conquistou o público feminino. “Apesar do tema, o livro foi apontado como um dos favoritos pelas leitoras da revista ‘Elle’, o que me surpreendeu”, contou a escritora, que não revela o próximo tema a explorar literariamente. Por ora, a prioridade é a fazenda em Taquaritinga, onde pretende permanecer, no mínimo, por cinco anos – o prazo necessário para estabelecer a plantação de café orgânico.

Ela garante que não seguirá o exemplo de Isak Dinesen, narrando sua vivência na direção da fazenda: “Escrever não ficção é abrir sua intimidade, que nem sempre é tão interessante assim. Mexemos com máquinas, andamos o dia inteiro. Estamos ainda aprendendo a tocar o negócio”, explica Frances, que tem como companheiros na empreitada o marido, a irmã e o cunhado.

O trabalho incessante limita a vida social dos dois casais, que ocupam casas diferentes no mesmo terreno. Levantam-se pouco depois do nascer do sol e passam o dia coordenando as atividades dos 17 empregados, entre elas a coleta de mel de colmeias de abelhas e os cuidados com as criações de porcos e de cabras, que fornecem os fertilizantes naturais para o solo. Acabam de plantar quatro mil mudas de pau-brasil na região. Segundo Frances, não há nenhum arrependimento por haver trocado a sofisticada Chicago pela pacata Taquaritinga: “Aqui é minha casa, minha referência de infância, o lugar onde pretendo envelhecer. Queremos criar mais do que uma fonte de renda para a família, trazendo uma inspiração para o desenvolvimento sustentável da região. Tudo é novidade e aprendizado. A vida ficou mais simples, não há televisão na fazenda. Mesmo assim, não há como nos isolarmos do mundo. Temos internet”.

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